Microdosagem de substâncias psicoativas - O que é? Funciona?
Reality Check
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Já ouviu falar sobre microdosagem de substâncias psicoativas?

Seguimos falando de bem-estar e saúde mental nesse setembro amarelo. E hoje é dia de entender o hype da microdosagem. O que é? Funciona mesmo? Bora entender! 

by Michelle, Sep 09, 2021
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Há quem diga que tá rolando um renascimento psicodélico. Na última semana, falamos sobre as terapias guiadas e como representam uma revolução na psiquiatria. Agora, chegou a hora de falar do verdadeiro hype do momento entre a galera modernete: Microdosagem.

O nome é autoexplicativo. Micro-dosar nada mais é que a prática de ingerir doses minúsculas de alguma substância psicoativa. Essa dose deve ser baixa o suficiente para não causar efeitos chapantes. Como assim? Segura, vamos explicar tim-tim por tim-tim.

Dá pra micro-dosar qualquer substância psicoativa ou psicodélica. As mais comuns são a psilocibina, presente nos cogumelos mágicos, o ácido lisérgico dietilamida, ou LSD, conhecido por aqui como ácido ou doce, e a nossa amada cannabis. Mas, a real é que dá pra fazer microdosagem até de cafeína se você quiser.

O hype é tanto que Nine Perfect Strangers é a série original da Hulu mais assistida da história. Com Nicole Kidmann, a trama aborda a microdosagem de cogumelos e está disponível na Amazon Prime. 

Apesar de ter sido lançada no fim de agosto, a produção já levantou o debate sobre a real eficácia desse tipo de tratamento e a importância do consentimento dos envolvidos. Bora assistir pra ver qualé, né? 

Agora, chega de papo e vamos ao que interessa.

Renascimento Psicodélico

Mesmo antes da pandemia, o mundo dos psicodélicos vinha intrigando e interessando pessoas ao redor do mundo. Com a chegada do Covid, parece que tudo foi acelerado e cada vez mais seres humanos se preocupam em ter experiências voltadas ao bem-estar físico, emocional e ao autocuidado.  A gente se inclui aí, né? 

As comunidades científica e médica também estão empolgadas quanto ao potencial dos psicodélicos para a quebra de paradigmas que envolvem saúde mental. Mas, como contamos semana passada, o proibicionismo atrasou os avanços e resultados, que são aguardados ansiosamente.

A galera é impaciente, e enquanto aguarda a ciência concluir os trabalhos, foi no DIY ou ‘faça você mesmo’ em ptbr. Muita gente passou a ingerir pequenas, quase imperceptíveis, doses de LSD ou psilocibina com o objetivo de remover bloqueios criativos, encontrar o foco, melhorar relacionamentos e aliviar a depressão.

A microdosagem parece uma solução mágica para várias questões, ainda mais numa sociedade que supervaloriza a produtividade acima de tudo, inclusive sua própria saúde mental e física.

Ou seja, existem milhões de pessoas que não têm necessariamente um transtorno de fato diagnosticado, mas que procuram algo que possa ajudá-las a se sentirem melhor no dia-a-dia. Se identificou? Muita calma nessa hora. O que temos até agora são relatos e mais relatos de experiências pessoais de microdosagem.

Eficácia da Microdosagem

Apesar de todo o hype sobre a microdosagem de psicodélicos, as pesquisas científicas sobre a prática ainda estão engatinhando. A grande maioria dos trabalhos publicados dizem respeito a sessões guiadas com doses completas de psilocibina, lsd ou mdma. Falamos disso aqui.

São pouquíssimos estudos clínicos com controle de placebo sobre microdosagem, os  ‘double blind tests’. Esse tipo de teste tem mais credibilidade, já que alguns participantes tomam placebo e outros a substância em questão, para tentar evitar que a expectativa do participante interfira no resultado.

Ou seja, a maioria das pesquisas sobre microdosagem são questionários que coletam informações demográficas e relatórios de experiências subjetivas. 

Relatos são confiáveis?

James Fadiman é considerado pioneiro no assunto. Psicólogo, ele é o autor do The Psychedelic Explorer’s Guide, em que coletou milhares de relatórios de usuários sobre microdosagem.

Quando conversamos com a psiquiatra Mila Castro sobre as terapias psicodélicas, a gente quis saber também sobre a microdosagem: “A segurança se perde quando falamos de pessoas tentando experiências sozinhos. Os relatos podem até levantar um interesse maior sobre o assunto, mas por si isso não vai ajudar na aprovação da Anvisa, porque não é um estudo padronizado,’’ explica ela.

Estudos clínicos são rigorosos e têm vários critérios a serem seguidos. O que temos por enquanto sobre a microdosagem são informações do mundo real: “A gente não pode dizer que é bom pra todo mundo, porque os relatos têm muito viés de informação. Microdosagem ainda é mais experiência e menos estudos,’’ continua a psiquiatra.

Mesmo não sendo completamente confiáveis, os relatos são inúmeros. Nessa matéria da cosmopolitan, mulheres relatam sua experiência com microdoses de cogumelos mágicos. Nessa aqui da Insider, mães contam seu ponto de vista. Já as microdoses de LSD ficaram em evidência quando o pessoal do vale do silício relatou o uso e também a partir da história de Ayelet Waldman.

Vou ficar doidão?

A intenção não é essa. Ao contrário de uma dose completa de psicodélicos, uma microdose deve ser quase imperceptível e não tem como objetivo atingir um estado transcendental, uma experiência transformadora ou visual, como é comum com doses mais altas de cogumelos ou ácido. A ideia é alcançar uma abertura dos sentidos, o que pra muitos é ter a sensação de presença em suas atividades cotidianas, estar mais perceptivo.

Concentração e dosagem

A nível fisiológico, as pesquisas e estudos já nos ensinaram que os psicodélicos são substâncias relativamente seguras. Ainda assim, a questão é se eles são seguros para tomar tão regularmente, mesmo em pequenas quantidades. 

Outro ponto importante sobre a microdosagem: qual é dose de microdose pra cada indivíduo? E mais, como saber a concentração exata de psilocibina, por exemplo? Elas variam muito, não só entre diferentes espécies de cogumelos, mas também entre diferentes levas da mesma espécie. Até nas várias partes do cogu ele pode ter concentrações diferentes do ativo. A única maneira de medir com precisão a concentração é por meio de uma análise de laboratório.

Vale o lembrete de que qualquer experiência psicodélica, seja ela de macro ou microdose, tem que ter como prioridade sua saúde e vitalidade. Pra alcançar isso, é preciso seu consentimento com honestidade e segurança quanto a si mesmo. Vale acessar nossa colab com o Girls in Gren sobre Redução de Danos.

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