DonCesão: "Quero criar um cara que queira estar comigo - Nowdays

DonCesão: “Quero criar um cara que queira estar comigo. É o mais importante”

No Nowdays People de hoje, o pai do Don dividiu com a gente a experiência de ser pai - e maconheiro. A paternidade teve um papel importante na vida dele. Tá daora, vem!

César, conhecido como DonCesão, é rapper, empresário e pai do Don. Ao lado de Nicole Balestro, criou a Ceia, selo e produtora musical que conta com talentos da cena como Djonga, Tasha e Tracie, Kyan, e Febem.

No People especial de dia dos pais, trocamos uma ideia daoríssima com ele. Falamos sobre paternidade, a importância de reconhecer vacilos para evoluir e claro, maconha!

Ele atendeu a chamada já com o baseado aceso e um sorrisão estampado. Simpatia em pessoa, quem lembra dele por conta do tradicional ‘Sou DonCesão e você não’ tá desatualizado sobre a revolução pessoal que rolou na vida dele de uns anos pra cá. 

Comentei que ele era o primeiro homem hétero a passar por aqui e agradeci o papo, ao que ele agradeceu: “Que daora, mó honra! Obrigada pelo convite! Acho muito louco o conteúdo, muito foda tudo.” 

Elogios trocados, vibe boa, comecei já falando sobre o impacto da paternidade na vida dele:

Virou uma chave aí, né?

DonCesão“Nossa, com certeza. Muda muita coisa: Cê desperta pra outras coisas que você não percebia até em você mesmo, né? Aí quando tem uma vida, você recebe a oportunidade de ter esse espírito pra criar, pra dar uma direção, primeiro você precisa saber a sua direção também.

A paternidade que me fez acordar pra um monte de coisa até de saúde minha. Questões que eu não percebia. Ia pra show, tomava uma garrafa de vodca, no mínimo, durante e depois do show. Então tipo, chegava final de semana eu tinha tomado três litros de vodca com energético. Voltava pra casa e só dormia na terça-feira. Aí falei, pô, num dá pra puxar esse ritmo, né? Num dá pra ficar vivendo assim. Daí fui diminuindo, e mudando algumas coisas.

Com a com a vinda do meu filho, eu fui procurar ajuda na terapia. E aí vi um monte de coisa de compulsão, até o lance de fumar também é uma compulsão que eu trabalho hoje de uma forma diferente na minha cabeça. Mas, antes, era uma coisa muito de compensação pra mim. Assim como várias obsessões, não só de pensamento, mas de você ter a necessidade de comprar, a necessidade de comer, sabe? Então isso foi uma coisa que a terapia me ajudou muito: Colocar cada coisa na sua gaveta, ver da onde que surgia essa vontade, e da onde que surgiu essa necessidade de ter que fazer algumas coisas.” 

Inclusive, seu último álbum fala desse processo de transformação, né? 

“Tava com vontade de escrever, mas já tava com a Ceia, trabalhando com artistas. Quando tive um tempinho pra mim, pensei: ‘Preciso fazer um disco falando disso que tô vivendo.’ Dessas mudanças, de ter passado a enxergar essas coisas.

Então eu tive que colocar isso de alguma maneira, também. As músicas que eu fazia antigamente, tem coisas que… Não que eu não me orgulhe, mas que eu não faria de novo. Porque tudo faz parte da nossa construção. Talvez se eu não tivesse feito, não teria ouvido críticas que foram necessárias para eu evoluir, né?

Uma coisa é crítica de um hater, outra coisa é quando cê lê um texto com fundamento, cê fala ‘Puta, caralho, isso é verdade. Falei um bagulho aqui que no momento é legal, pra uma massa pode parecer legal, mas que no fundo mesmo, eu tô endossando um comportamento que machuca um monte gente, tá ligado? Então no final não vale. Aí são coisas que a gente vê no decorrer né? É doido isso… Porque tem que evoluir, partir pra frente.”

Sempre! E os novos hábitos, como foi o processo?

“Eu sempre fui meio avesso a esse lance da academia, de forma física.

Daí, antes do meu filho nascer eu fiz uma bateria de exames e vi que eu tava com uma pré-diabetes. Tudo por esse lance de descontar tudo na comida. Tava ansioso e descontava: comia, comia, comia pelo hábito. Criei uma compulsão, então era uma compensação. Falava assim: se eu conseguir fazer isso, vou comer tal coisa, sabe? 

O que funcionou pra mim foi: Tudo que é vício, trocar por outro hábito. Então eu falei, eu vou tentar trocar por um outro hábito mais saudável. Com álcool eu tenho uma relação mais tranquila. Agora, com a maconha tem um lance que ela é uma coisa meio que do meu estilo de vida, sabe? Eu queria que não fosse tanto, tá ligado? Mas eu gosto de fumar maconha, eu gosto da cultura canábica. É uma coisa que me interessa. Então eu falei assim, pô… Eu tenho que tirar o pé de algumas coisas. Diminuí muito o consumo com meu filho, claro.”

E como é essa questão da maconha em relação ao Don?

“Mais pra frente é um diálogo que eu quero abrir com ele com certeza, mas agora que ele é uma criança na primeira infância eu procuro ser o mais neutro possível nessa formação. Agora sendo pai, eu percebo que a criança não aprende aquilo que você fala, é aquilo que ela vê. É o exemplo que ela vê, entendeu? Tento evitar, mas se tá um pessoal aqui e ele viu, é natural. Ele vê o pessoal fumando cigarro, vê o pessoal bebendo, então se eu acredito que a gente tem que normalizar, pra ele também tem que ser uma coisa normal. Então mais pra frente a gente vai ter esses diálogos, vai conversar e tudo mais, mas eu acredito que é uma coisa que tem que ser desmistificada, entendeu?”

Você acha que ele tem vantagem por ter um pai maconheiro?

“Acho que sim. A maconha em si, e o hábito ali de fumar maconha, foi uma coisa que dificultou a minha relação familiar. Então isso é uma coisa que eu vou evitar. 

Não quero que ele passe por isso, qualquer que seja a opção dele de vida. Não digo só do hábito de fumar ou de qualquer coisa. Não quero que nenhuma opção dele faça eu me afastar do convívio com ele. Não quero que ele pense “Preciso esconder isso do meu pai”. Quero um diálogo aberto. Então desde que não faça mal pra saúde e pra vida dele, eu quero que tudo seja uma conversa aberta, pra desmistificar, porque eu acho que o que mata muito na nossa sociedade é isso, é a falta do diálogo.

Um monte de gente sofrendo porque não tem um diálogo aberto dentro de casa, porque não tem um diálogo aberto na sociedade. Então, tipo, eu não posso replicar isso dentro de casa, né? A gente tem que criar o cidadão que a gente gostaria de ser. Tentar informar, passar a informação pra ele e tudo mais. No momento como ele tem 3 anos, muita coisa ele tá absorvendo, meus gestos, minhas paradas, eu prefiro evitar. Criação é um bagulho muito louco. Quando você acha que sabe alguma coisa, você vê que não sabe de nada.

É a melhor coisa que tem. Mas imagina por um filho num lugar sem água? Num lugar com uma doença que você não pode mais sair? Botei um filho no mundo e o mundo tá desse jeito, que é o pior dos planos. “

Nossa, sim.. Foda. Ainda mais sendo pai de um menino preto num país racista como o Brasil.

“É complicadíssimo. Eu sou o cara branco, tenho vários privilégios, de classe social inclusive, mas eu sou um cara que é de uma família preta.

Sempre cito um exemplo: Tava de carro, todo mundo, primo, amigo, daí tomava um enquadro e o tratamento comigo era totalmente outro… Então situações com a minha prima, com meus primos, com a minha própria vó, que eu fui vendo e caralho, são comportamentos que fazem um mal muito bizarro tá ligado? 

Então com meu filho eu tive uma preocupação muito doida. É foda colocar uma pessoa nesse mundo né? Então ao mesmo tempo eu me preocupo com o que o mundo vai ser com ele, me preocupo mais ainda com o que ele vai ser pro mundo.

Não quero que ele seja uma pessoa que replique comportamentos que às vezes ele vê de um coleguinha, ou do pai de um coleguinha, isso é muito doido, tá ligado? 

Porque a sociedade é isso mano, às vezes a gente cria essa bolha social nossa, de interesses e tudo mais, mas a gente tem que saber que é isso aí: Da porta pra rua o pessoal pensa desse jeito mesmo. Não todo mundo, mas a gente viu na urna que quase setenta por cento do nosso povo pensa igual esse cara aí que tá lá em cima. Eaí, que que a gente fala? Com todo mundo vendo tudo, com todo mundo vendo o jeito que o cara pensa, com todas as frases, com tudo escrachado, o povo ainda vai lá e endossa isso aí. Como que a gente faz? Dá medo, né? Eu tenho medo. Imagina quando o meu filho tiver dez, onze anos, treze, quatorze, sair na rua? Se o mundo já tá assim, imagina mais pra frente? “

Sei que ainda tá longe, mas você já imaginou seu primeiro baseado com ele?

“Não! Nunca pensei, tem umas coisas assim que eu procuro nem pensar, que dá a maior ansiedade, né? Tipo skate, ele sempre viu o skate dentro de casa, daí ele pega o skate e traz pra mim. Tipo, então são coisas da minha vida, coisas que eu gosto, tipo, ali tem um tecladinho com microfone, aí ele já pega o microfone e pede pra eu ficar falando no microfone, ele gosta de falar o nome dele no microfone… Isso eu acho mó da hora!

Então são pequenas coisas que vão acontecer naturalmente. Espero que aconteça naturalmente, mas quando ele tiver lá os vinte, dezoito, vinte anos, quando já tiver ali um ser humano formado, com as opções dele, com a escolha dele, ele queira esse momento comigo. Então, o que eu quero é isso, que ele por opção fale: eu quero tá com meu pai. Então, quero criar um cara que queira estar comigo, entendeu? Acho que o mais importante é isso, independente do baseado, que ele queira estar comigo.”

Tem algum ritual com a maconha?

“Prefiro fumar pouco e fumar uma parada legal, conhecer uma coisa diferente. Eu sou o cara do spliff mesmo, infelizmente gosto de um um pouquinho de tabaco: oitenta/vinte. Gosto de piteira comprida, sedinha fina e nada de bong, nada de nada. Nem balde, nem nada, pra mim é só essa modalidade e tá ótimo. 

E o que eu gosto assim mesmo com a maconha é de manhã, na verdade, pra acordar. É um ritual matinal meu assim. Acordo, aí não sou muito de já comer. Só tomo uma água, coloco um sonzinho, pego minha bandejinha, bolo um baseadinho, fumo, aí vou vendo as coisa que tem, vou vendo os e-mails, as mensagens, o tem pra fazer. Aí tomo um banho e saio pra guerra. Aí vamos assim, depois já vai o segundo do dia, o terceiro do dia até o sétimo, décimo, se tudo der certo!”

É difícil ver homens falando abertamente sobre bem-estar, saúde mental… Vamo falar de masculinidade? 

“É foda, um monte de amigo meu que fala que é desconstruído e tal, pô, acaba se pegando numa frase. E é nessa hora que tem que ter o diálogo, é ali que tem que falar, porque é ali que você vai mudar, é ali que você vai ver.

É que nem eu falo, são comportamentos nossos, uma risadinha que se dá, que tá matando um monte de gente. Não tô generalizando. Mas o que eu quero dizer é que esse comportamento machista ou comportamento homofóbico, essa é masculinidade extra é o que mata cara, é isso que é o que mata. É o que faz o pessoal excluir dentro de casa.

Mata até o o super-herói, o moleque super-hétero, que tem que ter o carrão, tem que sair, beber, pegar as minas, encher o carro de gente, encher a lata, encher o tanque do carro, pow… Bate o carro.

Essa extra masculinidade mata. Isso são diálogos que temos que ter. Como que cê vai  mudar a cabeça de um ser humano de cinquenta, sessenta anos, se o cara não tem empatia dentro de casa nem pelo próprio filho? É difícil… E essas pessoas tão vivendo na sociedade com a gente né? “

Pra fechar, um recado para os futuros papais:

“Quando você tem essa oportunidade de ser pai  – também as vezes as pessoas que não são pais biológicos – as pessoas que são realmente pais, mãe que tá ali presente, que cria, é uma batalha muito difícil, estar lá no dia a dia. Quem se dispõe a isso, são principalmente as mães, né?  Porque a mãe não tem a opção de ir embora. Então um monte de mãe fica aí sozinha, cria filho, é mãe de família, mata tudo no peito aí que faz tudo sozinha.

Então a gente tem que falar sobre isso. Se você for ter um filho, se você quiser ter um filho só pense nisso, que seu filho seja feliz, não deseje que seu filho seja astronauta, engenheiro, seja jogador de futebol, deseje só que ele seja feliz, a opção que ele quiser, se fizer ele feliz abrace e vai em frente junto com ele. É só isso.”

Curtiu a entrevista? Em People tem mais algumas pra você conferir!