“Nunca me senti tão realizada”, conta Poli, da Blazing Beauty - Nowdays

“Nunca me senti tão realizada”, conta Poli, da Blazing Beauty

O People de hoje tá inspiração pura: A Poli trocou uma ideia com a gente sobre a aventura de empreender no mercado canábico brasileiro desde 2019, quando criou a Blazing Beauty. Vem que tá daora!

Parece um sonho trampar com algo relacionado à cannabis no Brasil, né? Desde 2019 a Poliana Rodrigues é, como ela mesma define, CEO e estagiária da Blazing Beauty, uma marca-portfólio de cosméticos de óleo de semente de hemp, o cânhamo. 

Trocamos uma ideia com a Poli sobre as dores e delícias do empreendedorismo canábico, a reviravolta que rolou na vida dela até ela descobrir o universo da cosmetologia natural e, principalmente, o poder da semente de cânhamo. Claro que falamos também da relação pessoal dela com a planta e sua visão sobre o mercado canábico brasileiro. Vem que a gata passou a visão! 

Nosso papo começou com uma viagem no tempo. Pedi pra ela contar um pouco da sua trajetória antes da criação de Blazing:

“Sou de São Paulo, nasci e morei aqui até a crise dos vinte e sete, retorno de Saturno, todas essas coisas. Larguei tudo aqui em São Paulo e simplesmente me mudei pra Santa Catarina com o boy que eu tinha conhecido há muito tempo atrás no Tinder, é meu companheiro até hoje e ajudou a fundar a Blazing.

Estudei jornalismo e fui a pessoa que saiu no último semestre da faculdade sem se formar, sem pegar o diploma. Cheguei a trabalhar um pouco na área: um tempo em redação, também com assessoria de imprensa. E aí, na primeira reviravolta de vida me deu bode e falei, ‘cara, essa área não é o que eu quero pra mim. Já tava ficando muito estressada ao vinte e poucos, falei: não preciso disso. Então fui pra área de educação, dar aula de inglês. Então, primeiro eu fui comunicação, depois educação e aí nesse meio tempo em paralelo também comecei a flertar um pouco com produção de eventos, principalmente de cena Independente de São Paulo. Foi uma somatória de eventos meio aleatórios, mas que deram bom no final.”

No meio de tantas mudanças, como surgiu a Blazing?

“Cara, foi um lance muito louco: A Blazing é resultado de uma série de transformações pessoais. Hoje eu já posso admitir isso como mulher adulta: eu estava num estado depressivo muito grande antes de ir pra Santa Catarina. São Paulo, né? Cidade grande te tira muita coisa. Então eu tava saturada, pensei: “Já vivi tudo que eu tinha pra viver aqui nessa cidade. Não tá dando.

Então eu fui pra lá e entrei nessa pira de começar a fazer escolhas melhores, tipo, já que eu tô de mudança… Não é de repente ‘vou virar fitness e transformar a minha geladeira numa grande salada’, sabe? É só sobre fazer escolhas que fossem um pouco melhores, com mais cuidado por mim, com mais carinho, que até então eu nunca tinha feito. Sempre fui muito na automático, na loucuragem. 

A Blazing veio realmente dessa série de escolhas melhores pra mim mesma, de olhar pra cosmetologia, pro que eu tava colocando no meu corpo.

Foi bem em 2019, tava rolando o chá de bebê da Kim kardashian, que ela fez tudo com CBD. Então foi uma explosão, estava se falando sobre isso. E eu caí de paraquedas, assim. Foi uma questão de timing de perceber que isso tá bombando. Vi todo o potencial e vi o que estava se formando na comunidade do skincare brasileira. A gente tem esse momento de se reconstruir como público consumidor dessa indústria.”

Como foi a descoberta do óleo da semente de hemp?

“Foi um grande lance de estar procurando realmente. Até hoje se fala muito sobre CBD, né? Então eu já tinha lido tudo que eu podia, já tinha visto todas as gamas de produtos que eu podia sobre CBD e pele, skincare, já tinha lido tudo sobre fullspectrum, THC, todas as variantes disponíveis naquela época com canabinoides. Eu achava que se resumia a isso, né? E aí quando eu fui estudar um pouco mais da planta, descobri que era possível extrair um tipo de óleo vegetal dela também, que não é considerado o óleo medicinal. É como se fosse um óleo da semente de uva, um óleo da semente girassol, só que do hemp, da cannabis, né?

Comecei a pesquisar e na época o hemp também tinha sido descoberto como o Super Food. Então eles já estavam falando muito sobre os benefícios nutricionais das sementes. Falei bom… Se dá pra comer, dá pra extrair o óleo vegetal, e na cosmetologia a gente usa bastante óleo vegetal. Será que isso não é bom pra pele também?

Aí eu fui atrás e achei muitas pequenas iniciativas, isso é muito legal de enxergar. Porque o hemp seed oil é um insumo que precisa de uma qualidade e uma estabilidade muito grande, precisa sair igual em toda safra.

Quem tem isso normalmente são pequenos produtores, porque numa cadeia de produção menor, você consegue manter um controle maior do que você tá produzindo. Achei pequenas marcas independentes, histórias muito parecidas com a minha ao redor do mundo inteiro, assim, de Austrália a Índia, a Canadá, de gente que tava realmente colocando hemp seed oil na cosmetologia e descobrindo os benefícios da planta, abrindo a sua marca. Foi onde eu falei, nossa, preciso me conectar com as pessoas e de alguma forma fazer com que o Brasil receba isso também! E aí foi assim que surgiu o hemp seed oil na minha vida: estudando sobre a planta.”

Empreender envolve muitas etapas. Como foi o processo de construção de marca?

“Existiu realmente essa coisa da gente achar a brecha de não conter canabinóides, então o nosso risco de estar empreendendo nessa área não era tão grande. A gente tava amparado simplesmente pela ausência do que é considerado droga ou medicinal.

meme blazing beautyPensei: vamos nos espelhar nesse modelo de marca-portfólio, que tá rolando bastante no skincare: Pessoas fazem a curadoria de cosméticos coreanos, japoneses e trazem pro Brasil. Foi basicamente essa ideia, só que ao invés do filtro ser cosméticos asiáticos, o filtro era um bom cosmético com hemp: que fosse orgânico, natural e não testado em animais. 

Então a Blazing veio de todas essas referências, mas também de um lugar de eu não me encontrar enquanto consumidora, tanto de conteúdo, quanto de produto, dentro desse universo que tava me sendo apresentado. E ali eu falei, poxa, se é a minha marca que eu tô tendo a possibilidade de desenvolver algo do zero, acho que isso é um grande grande privilégio de poder fazer uma coisa certa já desde o início. Certo de acordo com o que você acha, sabe?

meme blazing beauty rihannaE aí começou um grande trabalho que foi muito doido na vida de empreendedora que é querer fazer tudo isso com baixo orçamento, basicamente com orçamento nenhum, né? Que é o lance do empreendedorismo que eu não chamo nem de independente, hoje já é de guerrilha mesmo, sabe? De tipo, se virar como pode, ir pra praça no meio da rua, tirar foto na grama, usar o cenário que tu tem e aí entra a minha parte de quase estagiária de isso ser um grande laboratório de produção e de aquisição de ferramentas também.

Então, isso é uma grande coisa do manifesto: às vezes não é só um meme da Rihanna, sabe? As vezes é mais do que isso, porque  isso ajuda as pessoas a pensarem que tá tudo bem chegar em casa e fumar um baseado depois do final do dia porque você está cansado.”

Você se sentiu acolhida pela cena canábica?

“Existe um termo que eu chamo que são os fiscais de luta, sabe? São as pessoas que querem dizer a maneira que você vai lutar a sua luta e o jeito certo que tem que lutar a sua luta. Eu fui muito acolhida pela parte das mulheres, isso foi assim… Fantástico, maravilhoso. Tive muita ajuda de muitas mulheres ótimas no começo de me pegar na mão e querer me apresentar pra lojista, pra colocar os produtos lá, isso rolou muito. Mas existe também pessoas e movimentos, enfim, organizações… Consideram isso como um ”não ativismo”, isso não é ativismo porque isso não está falando 24 horas por dia sobre a guerra às drogas e a falta de acesso ao canal medicinal, não é ativismo.

Mas assim, eu acho que faz parte de qualquer movimento as pessoas quererem colocar as demandas que são urgentes pra elas à frente de qualquer outra coisa. Então, eu não julgo, eu até entendo, acima de tudo somos todos aliados. Eu vejo muito desse ponto de vista, sabe? Não fazer pra mim não é uma opção porque é a minha fonte de renda, ela não é meu projeto secundário, sabe?”

E os desafios dessa jornada?

“O maior desafio pra empreender na cena canábica aqui no Brasil eu acredito que seja ainda a falta de acesso à informação. É o primeiro empecilho quando você vai falar sobre qualquer coisa, porque você sempre precisa partir do princípio de que você tá falando isso pela primeira vez pra alguém. Então sempre tem aquela coisa de adaptar o máximo possível, de sintetizar, simplificar. Além da parte da desinformação, né? Que é fruto aí da propaganda proibicionista.

A gente tem também todas as camadas de preconceito, tabu, choque. É muito difícil pra eu falar pro Uber que eu trabalho com cannabis, sabe? É uma coisa que eu tenho que falar ‘ah eu trabalho com cosméticos naturais’. Ainda assim é um grande desafio fazer isso no Brasil de 2021. Qualquer pessoa que esteja se propondo a falar sobre isso hoje, parabéns, tem as minhas palmas, mas ao mesmo tempo de novo: a gente não pode deixar de fazer. Então a gente só contorna ali e faz do jeito que a gente consegue com as ferramentas que a gente tem e segue adiante.”

Muito autoconhecimento envolvido:

“Tem sido uma loucura fazer isso de maneira independente assim, só eu e o meu companheiro. Ele ainda é o cara dos números, então ele só fica offline sabe? E aí existe esse meu equilíbrio. Porque a Blazing tem muito da minha voz, mas ela não é 100% eu. Então tem essa minha linha tênue de: até onde eu me desenvolvo, até onde eu desenvolvo a marca e onde é que as duas se encontram. Tem sido um processo muito louco, cheio de crises assim, muitas incertezas, inseguranças, mas ao mesmo tempo uma certeza completa de que é isso que eu preciso fazer, sabe? 

A Blazing é o projeto da minha vida, não tem outra palavra, e eu nunca me senti tão realizada na vida. A Blazing tem grande influência na maneira com que hoje eu me sinto bem, que consigo resolver as minhas coisas, me desenvolver, das coisas que eu aprendo assim. É muito foda olhar pra trás e ver que eu aprendi a fazer imposto de renda sozinha por causa da Blazing, sabe? Umas coisas de adulto e umas ferramentas que eu não ia ter e eu não ia parar pra desenvolver, e hoje eu considero importante. Hoje eu considero até de me dar certa autonomia, né? Certa liberdade pra eu não precisar depender tanto assim de outras pessoas. Então tem sido um processo muito doido de me descobrir empreendedora, comunicadora, de ver o lugar de cada uma, sabe? De ver o que que é melhor pra mim e às vezes o que que é melhor pra marca.”

E sua relação com a erva?

“É muito doido falar sobre a minha relação com a maconha, porque ela não está atrelada a uma doença que é muito severa, de uma última alternativa. É uma coisa leve, muitas das vezes ela tá amenizando meu humor, a maneira como vou produzir durante o dia, como eu respondo as pessoas. E realmente entra como um modulador nesse período menstrual. E aí quando eu falo sobre uso, falo bom: ‘sou paciente medicinal porque sinto dor, cólica e melhora os sintomas. Mas, se tô triste e fumo um baseado, isso tá sendo terapêutico, medicinal ou recreativo? Se eu estiver cansada no final do dia, no segundo dia de menstruação, não aguentei mais. Quis terminar o dia, fumei um baseado e tomei um banho. Se isso me relaxar, isso foi medicinal ou foi recreativo?

Faço realmente o uso terapêutico. A cannabis é um componente fitoterápico que me ajuda durante momentos do mês que são muito complicados pra mim e seriam muito piores se a planta não estivesse presente. 

Eu funciono muito bem com a erva, estou medicada em muitos momentos do dia. Mas porque eu encontrei o meu ponto de equilíbrio também, minha dosagem. Tudo isso já tá muito estipulado, tá até em planner quase! E aí eu consigo manter essa boa relação com a planta já.”

Que dica daria para quem quer entrar pro mercado canábico brasileiro? 

“Se eduquem em relação a planta! Realmente entender a planta, o que que você pode e não pode fazer com a planta no Brasil, e como você pode comunicar isso pras pessoas. E também calma, porque na pressa das coisas a gente acaba não entendendo muito como que a política de drogas funciona. E tudo isso é essencial. Então se joguem, não desistam, e venham. Porque acima de tudo a gente precisa de gente com boas intenções. Temos que ser uma indústria que faz diferente! Ah, e flopou o post? Engole o choro e vai!”

Pra fechar! Tem planos futuros pra Blazing?

“A Blazing tá passando por uma grande revolução. A gente vai lançar uma linha de produtos! O primeiro sai ainda esse ano. Não é um cosmético, mas tem tecnologia de cânhamo, voltado pro bem-estar. Vai ser estouro!”

A gente avisou que a Poli é braba! Se não conhecia a Blazing Beauty, corre pra acompanhar! Se quiser conferir mais algumas entrevistas nessa vibe, se liga!

. Th4ys sobre bem-estar, empreendedorismo e maconha

.Bivolt: “É conveniente pro Estado que a maconha seja ilegal”

.DonCesão: “Quero criar um cara que queira estar comigo. É o mais importante

.Livinha: “Sou o pacote completo do fim do mundo”