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Terapia com psicodélicos: Uma revolução na psiquiatria

Substâncias como MDMA e psilocibina abriram um novo horizonte no tratamento de transtornos psiquiátricos como depressão e estresse pós-traumático. Chamamos a psiquiatra Mila Castro pra nos ajudar a entender o assunto!

by Michelle, Sep 01, 2021
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A gente valoriza demais e sempre incentiva o cuidado com a saúde mental. No mês dedicado à prevenção ao suicídio não poderia ser diferente. Para começar os conteúdos do setembro amarelo, chamamos a psiquiatra Mila Castro para falar sobre terapia com psicodélicos. 

Hoje em dia, o tema é considerado uma revolução no tratamento de questões psiquiátricas. Mas, a real é que o proibicionismo atrasou muito os estudos dessas substâncias e a descoberta dos seus potenciais terapêuticos. 

Nas décadas de 1950 e 1960, cientistas chegaram a publicar mais de mil artigos sobre o uso de psicodélicos como tratamento psiquiátrico, com testes feitos em mais de 40 mil pessoas. Porém, conforme o uso recreativo das drogas se espalhou, elas foram proibidas e as pesquisas pararam. 

Felizmente, depois de anos de pausa, as terapias guiadas com psicodélicos são a grande aposta da ciência no tratamento de depressão refratária, estresse pós-traumático e outras doenças psiquiátricas. 

Projetos, estudos clínicos e financiamento de pesquisas sobre o assunto já são realidade ao redor do mundo. Inclusive no Brasil, que é o terceiro país com a maior quantidade de projetos, atrás dos Estados Unidos e da Inglaterra: 

“A psiquiatria tá passando por um momento de puberdade. As terapias psicodélicas vêm aí como uma possibilidade de um novo mecanismo de ação para pacientes que não respondem aos remédios que a gente tem atualmente”, comentou Mila, que fez sua tese de mestrado sobre o uso terapêutico guiado com MDMA na UCLA – Universidade da Califórnia em Los Angeles.

O que são psicodélicos? 

Pra não deixar nenhuma ponta solta, vamos entender primeiro o que são os psicodélicos e de quais substâncias tamo falando. Em grego, psicodélico significa ‘manifestação da mente’. 

A Mila explicou pra gente que “Estão dentro da classe dos psicoativos e têm um efeito principalmente na percepção da realidade. É uma definição meio genérica, né? Até porque muitas dessas substâncias psicoativas atuam nos mesmos receptores, então é curioso como algumas trazem esses efeitos mais perceptivos e outras não tanto.’’

Entre os efeitos mais conhecidos das várias substâncias psicodélicas, estão os visuais caleidoscópicos e fractais multicoloridos, sensação de sinestesia, ou seja, de fusão dos sentidos, como visão e audição, fragmentação ou dissolução do ego e picos emocionais intensos. 

Alguns psicodélicos são substâncias extraídas de plantas, como a psilocibina, dos cogumelos mágicos e a Ayahuasca. Outras são compostos químicos, como o MDMA e o LSD. 

“O que a gente percebe em exames de imagem sobre a ação dos psicodélicos no cérebro, é a ativação do sistema límbico, que é responsável pelas nossas memórias, os sonhos e subconsciente,” explica Mila.

Mas, o que seria uma terapia psicodélica?

Terapia psicodélica com psilocibina e MDMA

Basicamente, depois de uma série de triagens e critérios a serem preenchidos, o paciente faz a sessão de terapia sob efeito da substância em questão, guiada por um profissional treinado para isso. Alguns neurocientistas chamam de uma “cirurgia psiquiátrica” por sua ação pontual, de eficácia quase imediata e duradoura. 

“Tem muitos usos sendo estudados com MDMA. Principalmente para transtornos relacionados ao humor, como depressão refratária, aquela que não respondeu a pelo menos dois tratamentos com medicamentos padrão, depressão relacionada à câncer terminal e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). O grande diferencial é utilizar essa substância como uma forma de abrir a pessoa para uma terapia mais profunda,’’ explica Mila.

MDMA

O MDMA, ou metilenodioximetanfetamina, é a substância presente no ectasy, bala, md, molly, como você preferir chamar acumula mais de 100 estudos em andamento pelo mundo, e está prestes a ser a primeira droga psicodélica a ter permissão para uso com prescrição nos EUA. 

No Brasil, o neurocientista Eduardo Schenberg, comandou o primeiro estudo clínico desse tipo de terapia com MDMA para tratamento de estresse pós-traumático.

A eficácia da substância para casos graves está na quebra do escudo emocional, de desconfiança, um estado em que geralmente pessoas traumatizadas ficam. Ou seja, o MDMA facilita o processo terapêutico: “Do ponto de vista neuroquímico, a substância bloqueia a comunicação com a amígdala, região do cérebro responsável pelo medo, e libera ocitocina, hormônio que ajuda a criar vínculo interpessoal. O paciente ganha confiança e perde o medo das pessoas ao redor, que se tornam, então, ideais para ele se abrir e desabafar”, explicou o neurocientista à Folha de S. Paulo.

Como funciona?

Para sua tese de mestrado Mila fez um apanhando geral dos estudos clínicos que tinham sido realizados até então, e contou pra gente como funciona a terapia guiada: “Uma dose do MDMA ou da psilocibina é dada para o paciente, que fica em avaliação, junto com o terapeuta, por oito horas num ambiente controlado, medindo pressão arterial, temperatura do corpo, fazendo testes pra ver como ela tá se sentindo, quais são as reações que ela tá tendo. Também muito fica a critério da pessoa, afinal são oito horas, né? Então o ambiente é bem acolhedor, com cores e músicas tranquilas, óleos essenciais. E aí a terapia acontece nesse espaço. Depois, vem a parte da integração, que muitas vezes não é feita no mesmo dia. Tem terapias sem a substância para integrar tudo que veio à tona.”

Um ponto importante: Se a pessoa tem sintomas psicóticos como esquizofrenia, transtorno bipolar, é contraindicado o uso de psicodélicos. Nesses estudos, são feitas triagens rigorosas e os pacientes têm que preencher vários critérios para estarem aptos a participar. 

Ayahuasca

O Ayahuasca, um chá psicodélico feito de ervas amazônicas, também tem sido muito estudada no Brasil e no mundo para o tratamento de dependência de outras substâncias, como crack, estimulantes, cocaína, heroína: “Tem grupos que inclusive fazem triagem, contam com a participação de médicos, psiquiatras, fazem uma avaliação prévia pra ver se é seguro pra você. Vem com essa responsabilidade.’’

Vale lembrar que a tradição do Ayahuasca é ancestral e cultural: “Alguns grupos chegam com uma abordagem super cientifica e não respeitam muito a questão da cerimônia. Meu professor, por exemplo, sempre falou que existe um efeito muito grande da presença do xamã, na cerimônia na comunidade. E tudo isso acaba se perdendo se de repente a gente faz o Ayauasca virar cápsula, muda completamente o contexto, então existe essa discussão, mas não existe um protocolo.”

Uso Terapêutico x Contexto de festas

Galera, o assunto é daora e super animador, mas não é brincadeira pra testar sozinho ou em contexto de festa: “A grande questão é não extrapolar o que a gente encontra nos estudos clínicos para um contexto de festa, porque não tem nada a ver.’’ 

Aqui estamos falando de propriedades terapêuticas dessas substâncias. Quando falamos de rolê, a conversa é sobre redução de danos: “Então, de um lado a gente tá falando de segurança dos psicodélicos, contexto de festa, redução de danos e do outro lado a gente tá falando de propriedades terapêuticas. Nesse caso, nada é auto administrado, tem que ter um psicólogo ou um psiquiatra treinado junto.”

Uau, deu pra sacar porque os psicodélicos têm tanto valor para neurocientistas e psiquiatras, né? E não terminamos esse papo! Ainda esse mês, vamos falar sobre outra frente terapêutica com psicoativos: a microdosagem. 

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